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UM BLOG

Epístola de Sua Eminência o Cardeal, em 30.07.18

Isto é tão simples e tão bonito.

 

"O que é uma vida, então, senão um acervo? 
Um bouquet de factos, emoções, sensações e desejos que podem ser perpetuados de alguma forma, ainda que selecionados e formatados, claro, pois seus olhos, coração e memória não passam de grandes ilhas de edição.
Alguns de nós, no começo deste um tanto surreal século XXI, revolveram registrar a vida em blogs. Plataformas fáceis de usar, baratinhas de manter, abertas a alterações e mudanças de prumo. Eu fiz um, você fez um, todo mundo, todo mundo fez um blog. E passamos a documentar, e a criar um acervo.
Não se faz um blog, ainda mais um blog tão antigo quanto o meu, sem acervo. Numa velharia como o Drops, o acervo é, ao mesmo tempo, arquivo e material de pesquisa, fonte inspiradora e resultado da ruminação. Da ruminação. 
Em quase dezessete anos, com provavelmente mais passado que futuro, o Drops é um labirinto, tábuas que rangem enquanto percorremos corredores interligados numa ordem que arquitecto nenhum dá conta de desvendar. 
Num blog tão antigo quanto o meu, dedicado ao miúdo, ao dia a dia, à vida que vai, lenta e inexoravelmente sendo desenhada, empilham-se, não discursos empoados sobre “A situação que está aí”, “O estado das coisas”, mas observações ligeiras e francas, sorrisos largos, vagas impressões e apontamentos gentis.
Num blog tão pessoal como o meu, o que temos são, no mais das vezes, impressões, certezas, sonhos quase sempre esmigalhados, alegrias miúdas e curtidas, gestos de coragem (ou de burrice vão dizer os que me conhecem melhor, os que me levaram a percorrer galerias na Tijuca, os que me rezam pelo telefone, os que me deram abrigo, lasanha de berinjela e lenços de papel), grandes amores e perdas imensuráveis, olhos castanhos – que nunca nos pertencerão – do outro lado da mesa.
Num blog tão autoral quanto o meu, o que você vai encontrar são ridículos amealhados, oportunidades perdidas, um catálogo de rugas, pelancas e ressentimentos, velhas piadas engraçadíssimas (bom, que eu acho engraçadíssimas), rompantes camicases, músicas-de-se-cantar-junto, amores fulminantes, juras-nem-tão-secretas, avisos cordiais sobre se está ou não dando pé aqui no fundo.
Na deep web da subjetividade, trafego quase só, quase imperceptível, há quase dezessete anos, às vezes desviando de bólidos incandescentes, não raro matando os danados no peito. Inventario as pequenas vitórias, as derrotinhas minimizadas, posto fotos de canecas de café com leite e gatos dorminhocos (porque é esse meu universo), anoto fungadelas inconvenientes, meu espanto com o mundo, meus medos do porvir. 
Num blog tão querido quanto o meu, há fases de palavras, de palavras e de silêncio, fases de amar e desamar, de música cubana, de mãos estendidas, de fugas à meia-noite, de telhados, de série do Poirot, de piadas não explicadas, de promessas que jamais se cumprirão.
Reunir, selecionar, editar e organizar os diferentes escritos, das diferentes épocas, dos vários quotidianos do Drops da Fal, foi um gesto de bravura e de vaidade, um mergulho no imaterial, a celebração de uma nova etapa. Foi escolher continuar."

Fal Azevedo

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