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O QUE "FAZIA AMOR"

Epístola de Sua Eminência o Cardeal, em 17.08.19

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Cruzávamo-nos nos corredores. Cumprimentávamo-nos. Não havia ligação nenhuma. Éramos estranhos. No entanto, não podia deixar de o achar muito atraente. Cabelo cortado à escovinha, barba grisalha de dois ou três dias, moreno, seco. Gostava das pernas duras e grossas. Usava sempre calças de sarja, justas, que lhe modelavam a braguilha e deixavam à vista desarmada o que havia para moldar. Um rabo magnífico. Um tronco liso, musculado, mas sem inchaços fictícios.

Gostava do tipo e o tipo gostava muito dele. Vangloriava-se pelos corredores.
Tinha ligações profissionais com a faculdade. Nunca cheguei a saber quais. Creio que representava uma editora. Nunca me deu na mona fazer mais do que medir a minha vontade de o comer.

Acontece que nem eu sei bem como, o tipo acabou no meu gabinete. A chefona mandou-o ter comigo por estar ocupada, disseram, e, aqui para nós, há muito tempo sem interesse nenhum no que o homem fazia e dizia.

Fomos muito cordiais e muito simpáticos um para o outro e acabamos ao fim da tarde no barzinho aqui em frente a beber café.

A meio do açúcar o tipo começou a desbobinar detalhes mais ou menos íntimos.

Senti algum desconforto. Não gosto que façam de mim um reservatório de intimidades alheias. Já tenho as minhas se me quiser afogar. Mas ouvi. A certa altura o tipo andava já a vaguear pelas suas actividades sexuais, todas pinponas com o mulherio da faculdade. Aquilo pareceu-me exagerado, mas não dei importância. Era engraçado como o homem se referia as milhentas quecas que alegadamente deu. Dizia “fiz amor”. Fez amor. Fez amor com esta, fez amor com aquela, fez amor com a outra. Apetecia-me “fazer amor” com ele, mas não me atrevia a arrastar o marmanjo para o WC para lhe “fazer amor” com a alma através do rabo. Limitei-me a desligar e a fantasiar com o dito WC.

A certa altura, pareceu-me ouvir qualquer merda que me despertou o interesse. Pedi para que repetisse. O palerma gostava de experimentar “fazer amor” com um homem. Nunca tinha “feito amor” com um homem e não gostava de morrer sem ter experimentado.

Aquilo soou-me a engate. Era demasiado óbvio para me escapar. O tipo estava a propor-me que fosse com ele para a cama e “fizesse amor” com o pobre como o pobre nunca tinha experimentado fazer.

Sou um gajo benemérito. Sou altruísta. Sou solidário. Normalmente dou a quem nunca teve.

o tipo experimentou, gostou e até me surpreendeu. Para virgem dolorosa os gritinhos que deu não foram de grande sofrimento.

Estas manobras reforçaram o meu entendimento da coisa. Um tipo que já “fez amor” com uma multidão de mulheres, sabe com muitos detalhes como agradar a um homem.              

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