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BROCH DE BROCHE

Epístola de Sua Eminência o Cardeal, em 14.10.19

Hermann Broch, sobretudo este, enrolou-se-me na cabeça, abriu-me buracos no cérebro e deixou-me impaciente às voltas com o sentido da morte e o da vida, ou na ausência de sentido da vida pela existência da morte. Tirou-me o tempo e na igualdade da morte aproximou-me dos outros bichos.

Depois o merdas de Catão e depois o tarado do Nietzsche foram fazendo o resto.

Parece que tenho vermes no cérebro nascidos desses buracos e nesses buracos que descem da ideia para a acção. Contaminam os meus actos. Impossibilitam a minha sociabilidade. Não permitem que seja “um cavalheiro” educado e de belo trato.

As minhas coisinhas quotidianas são borradas pela mistura destes tipos que nem se aperceberam que me vão transformando num bicho sem sentido, como a vida e como a morte que nunca ensinam coisa alguma. São os penduricalhos de café que me podiam arejar a mona, que são afectados.

Não consigo ter paciência. Sinto tudo inútil.   

Não aceito a lista de coisas lindas que me desenrolam nas trombas quando a única paisagem que valia a pena ver se resume a uma frase.

- O que queria era mesmo que me rasgasses todo, me atirasses para cima da cama e me esmagasses todinho até deixar de sentir o cu.   

Simplificava. Fazia com que a vida tivesse algum sentido.

Mas não. Falam de sentimentos, de confiança mútua, de entrega, de respeito, de segurança e de outras coisas mais que dizem estar relacionadas com o amor. E Isto quando o tempo decorrido entre o “gosto em conhecê-lo” e estas baboseiras é de pouco mais que algumas horas. Não há nada a não ser uma erecção mútua. 

Nestas ocasiões, por muito que me apeteça fazer o que não é dito, conto muito devagar até dez (às vezes até cem, se o tipo valer a pena). Se tudo continua na mesma no fim da contagem, levanto-me e vou-me embora.  Ponho-me a andar, na alheta, no lá vai. Nem me justifico (para quê? para dar sentido à vida?).

Sou como um cão vadio. Se encontrar vou roendo uns ossos, rosno e ladro de vez em quando, cheiro o rabo e o cio dos outros, dou uma queca sempre que posso, faço as minhas “necessidades” e depois morro sem saber, porque nunca soube que vivi. O único sentido da vida mais sério que encontrei é o canino.

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